quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Faça-se a o diálogo!

Foram cinco dias de greve da policia militar, dois dias de histeria coletiva e um momento em que alguns sentiram o que muitos vivem diariamente. É claro que as coisas ficaram mais intensas sem policiamento nas ruas, mas enquanto você se trancou em casa, apreensivo (ou em pânico, dependendo do tempo passado com a TV, jornal ou internet), na iminência de um ataque à sua integridade física ou bens materiais; para aqueles que convivem com esses sentimentos cotidianamente o medo virou realidade. “Não vô amanhã, os bandidos tão todos na rua ameaçando o pessoal”, é com essa frase que uma conhecida encerra a mensagem enviada para o meu celular na terça à noite.

No entanto, no sexto dia a greve acabou e Fortaleza descansou. Se antes havia gente armada na rua abordando os transeuntes, roubando e ameaçando, agora basta que a filha da minha conhecida tome a precaução de sempre para sobreviver. “Enquanto eu tô fora, ela se tranca em casa e não fala com ninguém”, conta.

Não, não bastou alguém dizer “faça-se a violência!”, para que ela se fizesse em Fortaleza; ela sempre esteve ali, pairando ameaçadora sobre os bairros que não tem o privilégio de abrigar manjedouras com berço de ouro. Assim, ambém, os descontentamentos dos trabalhadores da segurança pública cearense não surgiram por determinação divina num dia em que o cara lá de cima estava de mau humor. A greve dos PMs/Bombeiros, assim como a dos Policiais Civis e a dos Professores, foram detonadas pelas condições de trabalho indignas e desumanas dessas categorias. Teriam sido evitadas caso o atual governo seguisse uma política social ao invés (ou quem sabe “ao lado”) da política ostensiva adotada, onde tudo tem que ser grande, tudo tem que ser imponente, tudo tem que meter medo.


O problema é que temor não enche barriga, não educa, não constrói casas, não traz saúde e, como ficou claro, não garante segurança. E na falta de tudo isso, sobra coragem para lutar, exigir e enfrentar ate mesmo grandiosas autoridades. E é aí que a coisa piora, quando se trata de Cid Gomes. Ao invés de buscar uma opção negociada e menos penosa para servidores e sociedade, o que se vê sempre é uma postura quase ditatorial por parte do nosso Governador.

Cid tem demonstrado completa inaptidão para a política: uma prática social que se faz necessariamente com bases no diálogo e na discussão pública vem sendo gerida por alguém que já deu várias demonstrações de profundo autoritarismo e truculência, optando por passar o rolo compressor sobre críticos, opositores e, principalmente, sobre a população organizada. E tudo isso com o aval submisso dos poderes Legislativo e Judiciário.


Sim, a justiça parece mesmo cega no Ceará, mas a população é que não pode ficar calada. Terminamos um ano marcado por paralisações e a exposição de uma gestão governamental falha. Entretanto os problemas não findam com 2011 ou com o encerramento da greve dos PMs. Cid Gomes deve satisfações. Quais medidas serão tomadas para reverter os fracassos do seu governo? Vai abrir diálogo com a população insatisfeita? Esse é o momento de fiscalizar, mais adiante será o momento de votar. Ele pode até não responder agora, mas daremos nossa resposta depois.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Eu sem Você

Sempre começa com o chocolate guardado na porta da geladeira. Ele seria degustado aos pouquinhos, “uma unidade por dia”, digo a mim mesma no supermercado, enquanto finjo acreditar que aquela noite em que penso estar desembrulhando você, e não um Ferrero Rocher, nunca vai se repetir. Meio louco isso de imaginar uma pessoa inteira presa numa bolinha dourada! Mas quem sabe só um pedacinho seu, embolado no meio recheio, escondido por trás do restinho de avelã? É parece razoável...

Sempre começa às 21 horas. Depois de tentar encher o dia que você deixou cheinho de vazio e algumas interrogações, quando sumiu em algum momento da minha vida e nunca mais voltou. E eu fiquei. Revirando o passado numa caixa de chocolates, querendo encontrar ao menos um bilhete no verso do papel dourado que me diga quando foi que eu comecei a te perder.

Você até esqueceu aquela camisa desbotada de militante estudantil; abandonou os filmes; largou, nas prateleiras do meu quarto, uns livros dos quais gostava; deixou comigo um calhamaço de informativos e anotações com idéias que pulsavam em sua cabeça inquieta. Esse monte de coisa que até hoje irrita minha mãe porque entulha a casa, mas que eu não posso jogar fora porque seria como ver morrer os últimos amigos de infância; aqueles que nada mais têm em comum, mas que são os únicos que sabem quem você é antes de qualquer trauma.

E será que aquele você, que fazia tão bem a mim, ainda existe por aí? E é sempre nesse “aí” que eu me transformo nesta louca compulsiva aqui. Mundo digital adentro, buscando na sua rede de contatos quem tem mais cara de culpado, alguém que te roubou de mim. Lendo freneticamente nas entrelinhas dos seus recados alguma mensagem de retorno; procurando em suas fotos qualquer sorriso mal formado de insatisfação. Ou quem sabe uma covinha de semelhança com o passado.

Pode ser que no seu último vídeo postado toque aquela música que você escutava diariamente no banho. Ou talvez um link me leve a encontrar sua antiga vontade de mudar o mundo, agora num formato moderninho e digital. Às vezes penso que 140 letrinhas podem gritar pelos programas que você fazia, pelas pessoas com quem se relacionava e até espantar o dia em que você me deixou. E ai fico contando há quantos minutos de distância estão nossos recados, querendo acreditar que algum poder cósmico aproxima nossos horários e pode encurtar a distância emocional que separa eu e você.

E sempre termina com meu estômago embrulhado e nenhum chocolate na porta da geladeira. Jogo fora as bolinhas amassadas de papel dourado e alguns dos seus informativos e anotações que estão enchendo o saco! Saio catando filmes, livros e camisa desbotada. Fecho janelas e fotos digitais, releio pela última vez os seus recados, analiso mais uma vez aqueles que te abraçam nos retratos, deleto alguma mídia social, juro nunca mais voltar ali, desligo o notebook e olho na tela escura o reflexo cansado de quem você se tornou: eu.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Curta esta semana: Pornô para mulheres. Prazer em conhecer.

Solto o cabelo, olho o relógio, prendo o cabelo, será que posso entrar antes?, vejo um vídeo-clipe na TV, pego o celular, coloco de volta na bolsa. Lá estou eu, prestes a cumprir mais uma etapa da minha renovação física-mental-espiritual, sentada na sala de espera da dentista que eu não consulto há anos. Por conta da ansiedade natural de quem quer uma transformação imediata na vida, chego uma hora adianta. Inevitável ler aquelas revistas típicas de salões de beleza e consultórios.

Após algumas folhas da Marie Claire de janeiro de 2010, me deparo com uma reportagem realmente interessante sobre algo que eu não conhecia: filme-pornô para mulheres! Muito prazer. Diretoras e produtoras do gênero priorizam o enredo; com belas cenas de sexo que primam pela qualidade da iluminação, enquadramento, etc.

Segundo a reportagem, as autoras preferem chamar seus trabalhos de “filmes de sensualidade explícita”. Será? Volto à minha casa, entro no site da diretora sueca Érika Lust e faço o download (por 5 euros) do seu curta premiado, “The Good Girl”, que hoje compõe o filme “Five Stories for Her”- uma coletânea de curtas eróticos hétero e homossexuais para mulheres.

O curta tem pouco mais de trinta minutos de enredo simples, mas que segue uma ordem de acontecimentos: Alex, empresária e inteligente, mas pouco ousada, é instigada pela amiga Julie a arriscar-se mais. A partir daí a fantasia que Alex tentará realizar é clássica: sexo com o entregador de pizzas. Num pornô tradicional a personagem principal seria uma gostosona siliconada, que sem motivo algum, transaria loucamente com o entregador que bate à sua porta por engano. Neste, a personagem é verossímil, de beleza possível e personalidade contida, precisa de estímulos (a amiga) para o que vem depois. E o que vem depois é um misto de romance e aventura. Sem selvageria, sem closes de cinco minutos no vai-e-vem que parecem ter saído de um pseudo-vídeo-arte (aqueles que após uma eternidade com imagens no mesmo ângulo, a câmera dá uma balançadinha de leve e continua no mesmo ângulo).

De início, meu namorado estranhou o beijo apaixonado entre o entregador e a garota. Ora, eu também estranho a cara de prazer das gostosonas engolindo esperma num pornô tradicional. The good Girl é um filme pornô, trata de fantasias sexuais e a história é uma justificativa para as cenas de sexo, mas tudo feito para nós, mulheres. Ah, e as cenas de sexo não deixam a desejar. A cara de felicidade plena da Alex e seus recuos (como quem teme sobre as próprias ações) são um toque feminino a mais. Meu namorado gostou e o resultado comprova a declaração da diretora:


“O cinema pornô deve ser feito como outro qualquer: com cuidado com o enredo, a iluminação e os closes certos. E acrescido de um ingrediente fundamental: tesão. Gosto de ver o braço do homem que acolhe minhas protagonistas, o seu bumbum e a cara que ele faz quando goza. Não aquele clássico entra-e-sai da penetração que os homens adoram porque os coloca lá em cima, como se fossem infinitamente superiores a nós.” (Érika Lust, em entrevista à Marie Claire)

Como não tenho permissão para exibir gratuitamente os filmes da Érika Lust, posto o seu curta "Handcuffs" (download gratuito no site dela). Apenas uma amostra comportada de 7 minutos.

Sinopse “Handcuffs”: Uma mulher, durante um encontro entediante em um bar, percebe a chegada de um homem com uma acompanhante algemada. É interessante como, neste curta, sem falas, fica clara a relação que existe entre o casal com algemas. Você não encontrará um homem com cara de carrasco enquanto assiste ao gozo sofrido da acompanhante. Os dois estão curtindo juntos. E a cara dele, de quem não sabe o que fazer, na última cena, também é formidável. Vai para lista Bons vídeos sem importância- para alguns. Assista outros, na barra lateral.

Curta esta semana (NÃO ASSISTA SE VOCÊ FOR MENOR DE 18 ANOS):


Outras sugestões de filmes de sensualidade explícita, apontados na revista Marie Claire (
veja mais no site da revista):

PS: Não assisti aos filmes. Não posso garantir qualidade e as sinopses são traduções livres dos sites oficiais das diretoras.

FIVE STORIES FOR HER
Érika Lust, 2007
Erika apresenta cinco modernas, urbanas, picantes e explícitas histórias, onde o sexo acontece de forma natural e realista. Um filme feito de mulher para mulher.

BARCELONA SEX PROJECT
Érika Lust, 2007
Documentário experimental sobre a vida de três homens e três mulheres, que busca conhecer suas maiores intimidades, mostrando, inclusive, orgasmos reais. Bonito, cru e extremamente autêntico.

EYES OF DESIRE
Candida Royale, 2009
A mulher também é voyeur. Esse clássico mostra o que acontece quando uma mulher com um telescópio começa a espionar seus vizinhos sensuais e misteriosos.

FEMALE FANTASIES:
Petra Joy, 2007
O Segundo filme erótico de Petra Joy é um banquete visual, uma celebração do prazer sensual e da arte da sedução. É baseado nas fantasias sexuais enviadas à diretora por fotografias de familiares, amigos e clientes.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sexo em Banho-Maria

Foto: Divulgação

Já faz tempo que essa história vem cozinhado na minha cabeça. E eu tentei muito, juro, mas simplesmente não consigo engolir. Enquanto a maioria até já digeriu - e hoje está cagando para tudo isso - eu continuo achando de muito mau gosto esse cardápio de mulheres frutas. A última, acredito, foi a mulher banana: um cara gay que entrou nessa salada descascando a banana no meio das pernas para atrair algum macaco de circo. Nada contra Transexuais, Travestis ou Transgêneros, mas se é pra assumir o lado feminino que seja com respeito ao movimento LGBTTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e os três Ts ali atrás). E não como uma bicha daquelas que a gente olha e ri por dentro: bem doida, coitada.

Hoje o cardápio diversificou, desertou da causa vegetariana e agora tem até mulher filé no processo de produção em massa. E são tantas que já nem dá para diferenciar o prato do dia. Pode-se estar confundindo mulher McDuplo com mulher Big Mac, quem sabe. Ah, sei lá, no fundo, no fundo é tudo a mesma carne. Me vê o número dois, por favor. Assim mesmo, sem saber o recheio, no fundo, no fundo, é tudo o mesmo sabor, sem nenhum tempero.

Pra mim não dá. Definitivamente eu não quero ser comida. Nem substantivamente, nem verbalmente falando. E em verdade eu voz digo, verbalmente falando, é sempre a gente que engole a banana, o pinto, a cenoura, os ovos, o biscoito e o tal do ganso que eles afogam. Então, por que diabos, na cama - ou mesa, banho, elevador, escada... – se diz que os homens comem, enquanto a gente só faz dar? A eles ainda é permitido “dar umazinha” com uma dona por ai. A nós, só resta assumir a tão proclamada natureza altruísta de mulherzinha, nos dando de bandeja – às vezes literalmente falando – e dormindo de barriga vazia.

E eu continuo achando esquisita essa receita de sexo com comida. O que pode levar a alguns impasses na hora do amor. Um gelzinho com sabor até vá lá, mas salpicar sushi pelo corpo, ou lambuzá-lo todo de leite condensado, enquanto um carinha se serve nele - ou dele - não me parece apetitoso. Para mim, sexo é sexo, comida é comida. E a ordem do cozimento é jantar, sexo, comidinhas depois do sexo, sexo, comidinhas, sexo... Ao mesmo tempo pode embolar a massa. Sou faminta por novos sabores, mas engasgo só de me imaginar ali; estatelada como um frango assado esperando pra ser enfiado por um espeto. E já que não sou eu quem come mesmo, fecho a cozinha e pronto. Daqui não sai mais comida, ponto.

Claro, a massa até “desembola” enquanto a gente assiste a um filme com um pote de sorvete na mão. “Opa, pingou sorvete aqui, posso limpar?” “Claro amor, limpa com a boca.” Tranqüilo. Cozinhar junto sempre é divertido. É um prato feito a quatro mãos. E não, eu fingindo ser um frango, enquanto ele come com pauzinho. Prefiro uma refeição assim, preparada em banho-maria. Bemmm devagarinho.

Parece que há muita fome de afirmação sexual e uma pitada de hipocrisia em tudo isso. A liberdade sexual da mulher foi confundida com um produto vendável e apetitoso aos olhos do público masculino. “Ela não é senão o que o homem decide que seja, [...] para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente”, já dizia Simone de Beauvoir no seu livro O Segundo Sexo.

E a vontade do sexo divertido, permitida a nós por nossa consciência, foi substituída pela obrigação de uma receita de imagem a se vender: “ontem peguei um cara com um pau enorme”, “ontem dei uma surra de buceta num carinha”, com o perdão da palavra, mas é o que dizem por aí. E o sexo vira lenda urbana na era da “mulher moderna”, ele não deixa de ser tabu. Não se fala dele como quem fala de cinema: “ah, ontem foi bom, assisti ao filme que estreou, transei gostoso e depois fui jantar num restaurante baratinho”. É espantoso como o simples pode ser escandaloso.

E sexo é simples, é infantil: divertido, sincero, puro e malicioso ao mesmo tempo e não dá nada, assim, de forma tão generosa. Ele pede uma troca. Uma troca de olhares, toques, sensações, cheiros, texturas, sorrisos, atenção, contrações. Sexo é dança. É sentir o que o corpo do outro quer e seguir, mas acima de tudo, é saber o que o próprio corpo quer e pedir.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Para ler no banheiro

Divulgação
Já está no banheiro? Agora sente o cheiro. Êpa, sem ofensas, não estou falando de você! Por incrível que pareça, o cheiro de bosta que você está sentindo não vem do trono em que está sentado. O excremento ao qual me refiro vem de cima para baixo, e não de dentro para fora, como fazemos no vaso.

Vou explicar melhor. A evacuação fecal caiu do alto da arrogância do jornalista Boris Casoy. Dá pra sentir o fedor de longe né? Pois é, no dia 31 de dezembro de 2009, durante o jornal da Band, após a imagem de dois garis, sem saber que sua voz estava no ar e no ápice da sua infecção intestinal, Casoy disse:

"Que merda. Dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. Dois lixeiros... O mais baixo na escala do trabalho". (Boris Casoy)

A gente sabe, tem gente que vive de limpar lixo, tem gente como Casoy, que vive de falar lixo (vide Mainardi). Então, a merda em si não é o jornalista, mas a latrina cultural que ele representa: o atraso social, o preconceito, o desprezo ao trabalhador, o ódio ao povo. Casoy atirou a suposta democracia contemporânea descarga abaixo e deixou transparecer a ideologia neoliberal vigente, que prega a desigualdade social como um valor necessário ("Pós - neoliberalismo. As Políticas Sociais e o Estado Democrático", pesquisa sobre esse livro tá?) e vende a idéia de que a pobreza é fruto da incompetência, escondendo que na verdade ela é um projeto político-econômico (já que se faz “necessária”).

Pelo visto a sociedade está mais desorientada que um barco de bosta navegando por um mar de urina, sendo levado pelo vento do peido. Inspirada no momento fecal, deixo abaixo um lindo poeminha, o vídeo-mico do jornalista e outro vídeo com seu pedido de desculpas, feito no dia 1º de janeiro de 2010, no mesmo jornal.


“Cagar é a lei do mundo
Cagar é a lei do universo
Cagou Dom Pedro Segundo
Cagando criei esse verso

Cagando sentado no vaso
Sentindo uma depressão profunda
A bosta bate na água
A água bate na bunda.”

(Autor desconhecido)

BORIS CASOY HUMILHA OS GARIS (aumente o volume) :


DESCULPAS APÓS HUMILHAÇÃO AOS GARIS:

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O quarto da cor de pêssego.

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Dizem que a sua casa é uma metáfora da sua vida. Como moro na casa dos meus pais, tomo a liberdade para achar que o meu quarto cumpre essa função. E se eu estiver correta, minha vida está uma bagunça. Então, mesmo sendo avessa a resoluções de ano novo (apesar de amar celebrá-lo), mesmo acreditando que todo ano é uma continuidade e que as mudanças devem ser atemporais; admito o potencial inovador que esse período encerra em nossas mentes e decido que a nova contagem do calendário ocidental é um bom momento para colocar o quarto em ordem.

A frase “só nascendo outra vez”, em geral refere-se a algo imutável, mas creio que não é preciso reencarnar para se reinventar. Você renasce quando resolve deixar de amar o que faz para fazer o que ama; quando decide ler o jornal diariamente para tentar entender um pouco mais de política e economia; quando entende que acordar uma hora mais cedo só para caminhar descalço no parque é bom pra caramba; renasce quando muda de opinião; ou quando descobre a beleza da lua despontando detrás de um prédio na volta do trabalho. O meu quarto entrou em trabalho de parto quando foi colocado abaixo.

Foto: Divulgação
Roupas, livros, DVDs, móveis, acessórios, canecas, gaita, revistas, cartazes e souvenirs de encontros estudantis. Todos espalhados pelos demais cômodos da casa, esperando, como se tivessem vida, história. E realmente têm, mas isso é conversa para outro texto. Começo com aqueles objetos que já completaram o ciclo e lhes dou uma nova função; separo o que vai ser doado ou reciclado. Um short velho se transforma numa ótima flanela para limpar os armários de madeira.

Percebo alguns móveis tomados por cupim, mas nem penso em me desfazer dos objetos de madeira, eles me dão a sensação de estar próxima à natureza. Imagino que essas enfermidades mais difíceis de se curar são conseqüência do tempo de descaso; cabe a mim tratá-las, então peço na portaria o número da empresa que dedetiza o prédio. Às vezes a gente precisa de ajuda externa.

Foto: Divulgação
Um balde com água sanitária solvida em água, outro com água e sabão, seis flanelas feitas de roupas antigas e três tubos de óleo para madeira depois, e o que resta é um quarto vazio. Nas unhas, o esmalte vermelho de sempre já não é o mesmo. A bandana com a inscrição “Cuba”, usada para proteger meu rosto da poeira, precisa de um banho tanto quanto eu. Roupas e livros ficarão provisoriamente empilhados até que os móveis sejam dedetizados.

A arrumação vai ser mais demorada do que o esperado. Por hora, mudo a cama de lugar; coloco à frente o aparador de madeira entalhada que foi da minha avó e que hoje uso para abrigar parte da minha “biblioteca”; consigo um lugar especial para minha gaita, meu notebook e meus livros de cabeceira do momento. O arranjo não ficou perfeito, mas toda mudança pede tentativas e às vezes erros. Tento imaginar um lugar para os meus DVDs, além de um vasinho com flor que caiba no parapeito estreito da janela. Sei que meu quarto será cor de pêssego, mas não sei por quanto tempo. Afinal, convenhamos, ele pode ser de todas as cores!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Sob lentes de aumento

Divulgação (Albmoro)

“Vamos tirar uma foto!”. Frasezinha danada. Bastante proferida nestes tempos festivos de final de ano. E o fenômeno, sempre o mesmo: é só o autor da frase anunciá-la e os ouvintes logo se colocam a postos, vestindo seus melhores personagens. É quase como um sinônimo de “luz, câmera, ação”, mas utilizada no cenário anônimo da realidade.

Desde o início a fotografia provocou tensão. Algumas pessoas acreditavam que suas almas eram capturadas pela máquina e aprisionadas no papel. Já li em algum lugar que os índios pensavam assim, mas lembro nitidamente de, na faculdade, o meu professor de Fotografia 1 afirmar que era a população em geral. De qualquer forma, a teoria faz sentido.

Talvez a câmera não seja capaz de apropriar-se daquela alma independente da matéria, que, alguns acreditam, se conserva após a morte e é capaz de viajar no espaço. Talvez sua ameaça esteja em alcançar a alma no sentido mais vulgar da palavra: o ser individual que sobrevive em nós apesar do corpo. A essência legítima que nos define e insiste em existir, mesmo ignorada e reprimida pela nossa mente contaminada de certezas.

Um amigo diz preparar a melhor careta possível sempre que percebe que um click se aproxima. Minha mãe fixa o olhar no horizonte e forma um sorriso tão verdadeiro quanto a desculpa do Ronaldinho de que não sabia que os travestis que passaram a noite com ele em um motel eram homens. Outra amiga não perde a mania das poses sensuais.

Observo retratos de conhecidos na internet. Tem aqueles que escolhem as piores fotos e distribuem discursos do tipo “sou feio”, “sou gordo”, “sou chato”. Tentam emprestar para a câmera imagens no melhor estilo vejam-como-eu-não-ligo-para-o-que-você-pensa, mas tudo o que eles querem é que você pense que eles não ligam. Também encontro fotos explicitamente sofisticadas, sensuais, artísticas... É o jogo do mostrar para esconder. Fazer ver; para parecer que não dá à mínima se for visto.

Outros optam por fotos fragmentadas, escurecidas, de costas, o detalhe do olho, da boca, do cabelo. São estes mais sinceros ao assumirem que se importam, sim, se forem vistos; mas não sinceros o suficiente para se mostrarem.

Já eu, nunca sei onde colocar o braço que ficou sobrando. Sabe, de um lado estou abraçando alguém, mas o outro lado está vazio. Imagino meu braço pendendo pela lateral do corpo, parecendo um peso morto. Melhor me posicionar no meio do grupo, mas o que faço com a cabeça? Será que fica melhor mais inclinada, com o queixo mais para baixo, ou com o olhar um pouco de lado? Dou uma espiada ao redor e me acho ridícula no vestido lilás. Sinto uma vontade danada de pedalar pelo litoral, sozinha. Lembro de uma foto minha, de dez anos atrás: a câmera bem próxima, cabelo curto desgrenhado, sorriso bem aberto, o mar ao fundo e a alcinha do biquíni laranja aparecendo junto com toda a pureza dos meus 17 anos. Sem medo algum de ser comum (ou seria diferente?).

Essa é a qualidade que causa estranheza hoje em dia. O que você pode ser é “normal”, jamais comum. Deve entrar na universidade aos 17, estar formado aos vinte e poucos e aos trinta deve ter um carro e condições de comprar um apartamento. E como todos, deve querer casar-se. A noiva, como todas, busca o melhor estilista que fará um vestido único, como faz para todas. O noivo, como todos, faz piada sobre finalmente alguém conseguir fisgá-lo. Como tinha de ser, já que se trata de uma mulher especial, trabalhadora e de família; como toda noiva deve ser. Aos quarenta anos, o casal deve ter posses que são para poucos, mas que todos devem ter: uma cobertura, uma fazenda, uma casa na serra, no mínimo dois carros e um par de filhos. Agora já pode morrer.

Você também pode adotar o estilo “mazela” de ser. Ser contra dinheiro e contra qualquer propriedade privada. Aquele tipo que odeia natal, acha que até o dia da mulher é um golpe de marketing e provavelmente vai casar de pára-quedas em qualquer outra religião que não seja a católica. E é normal que, nesse caso, você nem reflita muito sobre tudo que odeia, basta decorar algumas citações dos livros de filosofia e reproduzi-las sem nem mesmo senti-las que vai ficar bem na foto.

Àqueles que não querem ser concursados, empresários ou mazelados; que desejam viver com quem amam e não com quem se casaram; que procuram uma casa pequena, com fumaça saindo da chaminé, em um local onde tudo se faz a pé; resta o desconforto de uma pose forçada diante das máquinas fotográficas, sem saber o que é pior: deixar transparecer seus sonhos excessivamente comuns e absurdamente diferentes para os dias de hoje, ou deixá-los bem guardados no fundo do baú. Não é a fotografia que aprisiona nossas almas e sim a nossa mania de querer ser diferente como todo mundo.